08 mar 2022

Equilibrio de gênero no agronegócio café

Especialmente neste Dia internacional da Mulher a Universidade do Café Brasil/PENSA tem a satisfação de divulgar a pesquisa recém concluída sobre desequilíbrio de gênero no agronegócio café.
O documento tem caráter propositivo, com sugestões de estratégias públicas e privadas que podem efetivamente mitigar efeitos da desigualdade de gênero.
Esta pesquisa foi conduzida pela equipe da Universidade do Café Brasil, Prof. Decio Zylbersztajn, Prof. Samuel Ribeiro Giordano e Profa. Christiane Leles, com colaboração super especial da Profa. Raquel Santos Soares Menezes, Josiane Cotrim e Amanda Nunes.
A pesquisa está publicada na 12ª. edição dos Cadernos da Universidade do Café, disponível para download no link: http://universidadedocafe.com/publicacoes/cadernos-universidade-do-cafe-vol-12-2022/
Desejamos uma boa leitura!

09 dez 2021

PODCAST # 7 2021- EXTERNALIDADES NO FORNECIMENTO DE CAFÉ PARA A ILLYCAFFÈ

Em 2002 a Universidade do Café Brasil realizou a pesquisa externalidades no fornecimento de café para a illycaffè.

Em economia, externalidades são os efeitos colaterais de uma decisão sobre aqueles que não participaram dela, ligado aos efeitos positivos ou negativos, gerados a partir de uma transação.

Existe uma externalidade quando há consequências para terceiros que não são levadas em conta por quem toma a decisão. A externalidade positiva surge quando existem ganhos difusos a partir de uma transação.

A pergunta da pesquisa de 2002 foi se haveria externalidades positivas, monetários ou não para os fornecedores da illycaffè nas outras transações que não as realizadas com a illycaffè.

Os dois dos temas tratados na pesquisa foram

– As estratégias da illycaffè

– Pesquisa realizada com os fornecedores

A illy desenvolveu diversas estratégias para incentivar a produção de café de qualidade no Brasil. Três das estratégias desenvolvidas pela illy no Brasil foram importantes:

– Compra direta do produtor,

– Promoção da qualidade com a instituição de um prêmio de qualidade do café para expresso, Prêmio Ernesto Illy de Qualidade Sustentável do Café para Espresso, que já está em sua 30ª. Edição,

– Pagamento de preços motivadores como incentivo para os produtores que atingissem o grau de qualidade desejado.

Para garantir seu objetivo, a illycaffè estruturou e desenvolveu uma rede de parceiros no Brasil:

– Experimental Agrícola do Brasil: Opera compras, controle de qualidade dos cafés, exportação e extensão tecnológica, com os agrônomos.

– ADS: Opera a Comunicação, o Clube illy do Café e organiza o evento de premiação para produtores.

– Universidade do Café Brasil coordenada desde 2.000 pelo PENSA-USP O Centro de Conhecimentos em Agronegócios.

A UdC Brasil tem como meta gerar e difundir conhecimentos para o agronegócio café.

Nestes 18 anos desde a pesquisa inicial e esta reavaliação, outras empresas seguiram a estratégia da illy.

A demanda por cafés de qualidade aumentou.

Um número crescente de produtores também aumentou a oferta.

Apareceram outros concursos de qualidade, promovidos por diversas associações e organizações, muitos deles seguindo a estratégia pioneira da illy.

Ou seja, cada vez mais a disputa pelos cafés de qualidade se acirra, exigindo uma sintonia mais fina entre empresas e seus fornecedores para atingir suas quotas e necessidades.

Pesquisa realizada com os fornecedores teve como objetivo avaliar ganhos diretos e indiretos (externalidades positivas) em relações posteriores à comercialização com a illy.

Os cafeicultores comercializam com a illycaffè apenas uma parcela do café que atenda ao padrão exigido pela empresa e o restante é comercializado com outros compradores.

Na época da pesquisa, 2002, a illy comprava apenas o tipo peneira 16 acima, o que gerava o chamado “fundo de peneira” com café peneira 15 e demais.

A principal pergunta era se a reputação gerada por ser um fornecedor da illycaffè poderia facilitar as negociações do restante do café.

Para responder a pergunta de pesquisa foram realizadas entrevistas com 46 fornecedores da illycaffè de diversas regiões selecionados ao acaso. Entre os resultados foi identificado que para a maioria dos entrevistados (82,5%) ser um fornecedor de café para illycafè era um diferencial no mercado, comparado ao recebimento de um certificado de qualidade.

A externalidade positiva era percebida, também, durante a negociação do restante do café de qualidade.

O contexto em 2.021 é diferente, pois o mercado de cafés de qualidade se desenvolveu consideravelmente. A oferta de cafés de qualidade cresceu, como também a busca por cafés de qualidade a partir de compradores nacionais e internacionais, que, a partir das ações da illy, tiveram o Brasil reconhecido como um fornecedor de cafés de qualidade e não apenas um produtor de commodities para fazer volume em blends.

Nas entrevistas realizadas para este Boletim foi destacado que o ganho indireto por ser um fornecedor da illy já foi muito forte, atualmente a maior referência é fornecimento contínuo ao longo dos anos.  No início eram poucas as empresas que compravam café de qualidade regularmente. Por esta razão produtores mais antigos valorizam mais a parceria.

Cafeicultores mais jovens, que não viveram aquela época, já encontraram o mercado muito competitivo por cafés de qualidade. Assim reduziram-se as externalidades de ser um fornecedor illy.

A illy teve um papel importante no desenvolvimento do mercado, tanto por mostrar aos cafeicultores como produzir cafés de qualidade, quanto por chamar a atenção dos demais compradores para o fato que o Brasil pode produzir qualidade em grandes quantidades.

Universidade do Café Brasil criada em 2.000 teve o objetivo foi levar conhecimento sobre como produzir café de qualidade.

Foram feitos cursos abertos para mais de 10.000 pessoas.

A compra contínua de cafés de qualidade, com prêmio de preço, segundo os fornecedores, estimulou o investimento em qualidade, pois ano a ano eles sabiam que teriam para quem vender a safra a um preço diferenciado.

Novas conclusões

Ser fornecedor illy gera externalidades positivas para os cafeicultores. Ou seja, ser fornecedor da empresa é como ter um certificado de qualidade que “contamina” de forma positiva as demais transações feitas pelo produtor.

Os preços no mercado spot estão mais  altos que  os valores  negociados  antecipadamente este ano devido a problemas climáticos . A situação já foi o inverso por repetidas vezes.

Produtores experientes sabem que o mercado flutua, já os mais jovens podem se sentir tentados a romper com a tradição.

01 set 2021

Podcast UDC #5 Pesquisa: Perfil do Produtor de Café do Brasil

Podcast Universidade do café Brasil – Uma nova forma de comunicar nossas pesquisas

Em 2008 a Universidade do Café Brasil realizou a pesquisa Perfil do Produtor de Café do Brasil. Um trabalho com caráter exploratório, seu objetivo era caracterizar o perfil do cafeicultor brasileiro, com os seguintes determinantes:

  • características do produtor e da produção de café;
  • desempenho do negócio;
  • percepção de risco do negócio;
  • influência da família no negócio e
  • tendências nas relações de comercialização.

Obteve-se uma amostra não-probabilística de 410 produtores entrevistados, indicados por empresas, cooperativas e associações de produtores.

A pesquisa foi realizada há 13 anos, mas é interessante observar as mudanças ocorridas e destacar pontos importantes identificados.

Resultados encontrados na pesquisa:

Relacionadas à produção:

Do total dos entrevistados, quase a totalidade deles era proprietário (87%), sendo 5% arrendatários e 6% parceiros.

Os dados do Censo Agropecuário do IBGE de 2017 apresentam dados semelhantes quanto a  lavouras perenes:

81% dos produtores são proprietários e apenas 6% das propriedades são arrendadas.

-69% dos produtores não adotam colheita mecanizada. Uma pesquisa de 2018 do CafePoint/CNA identificou que mais de 73% dos entrevistados utilizavam métodos manuais e semimecanizados de colheita de café.

Ou seja, a mecanização na colheita ainda não é realidade na maior parte das regiões cafeeiras. Isto se deve, em parte, às condições topográficas, pois o café plantado em montanhas apresenta dificuldades para a mecanização

Quanto ao processamento pós-colheita, do volume total de café da amostra, observou-se que 74% era beneficiado pelo método natural, 18% descascado e 8% despolpado.

Uma pesquisa recente do SEBRAE  de 2021 identificou que:

  • 39% dos produtores entrevistados produzem cereja descascado,
  • 28% desmucilado e
  • 24% realizam algum processo induzido de fermentação.

Esta mesma pesquisa indicou que 44% da produção de 2019 foi de cafés especiais, o que revela uma tendência dos produtores em investirem mais na produção de cafés de qualidade.

Interessante observação na pesquisa de 2008 foi a de que

86% dos entrevistados não adotavam nenhuma forma de certificação.

A pesquisa do Sebrae de 2021, 23 anos depois, identificou que 50% dos entrevistados possuem algum tipo de certificação.

Quanto à gestão das propriedades

Em 78% dos casos os proprietários administram diretamente a propriedade e 14% contratam gerentes/administradores. Dados próximos aos do IBGE no censo de 2017.

A assertiva 1 da pesquisa de 2008 apresentada aos produtores, “O desempenho do negócio depende muito da dedicação do produtor”, foi a que teve maior índice de respostas em “concordo totalmente”.

Outras assertivas: “o negócio vai bem porque é o produtor quem negocia com os clientes” e “o negócio vai bem porque é o produtor quem negocia com os fornecedores” também apresentaram alto índice de concordância. Ou seja, os produtores percebem que a sua participação é fundamental no desempenho do agronegócio.

-Quanto a comercialização do café     

82% dos entrevistados optou pela venda à vista. 36% dos entrevistados pela venda de café com contrato de troca de insumos e foi adotado, entretanto, com representatividade de apenas 5% do volume total da amostra.

A pesquisa CafePoint/CNA de 2018 identificou que 64% dos respondentes não realizam a venda futura da produção. Ou seja, percebe-se ainda uma prevalência de comercialização no momento da colheita ou após algum tempo de armazenamento com posterior comercialização no mercado físico.

O boletim de pesquisas de Maio/21 da UdC Brasil revisitou a pesquisa sobre contratos de suprimento de cafés. Entrevistas apontaram que há tendência de aumento do volume de contratos a termo, no entanto, esta prática comercial varia de acordo com a região. No cerrado mineiro é uma prática comum. Já na região das Matas de Minas observa-se menos contratos a termo, estimando-se  que seja realizado por 15 a 20% dos produtores.

Considerando as oscilações de preço no mercado internacional de café, a comercialização futura é um mecanismo importante para gestão de risco e garantia da renda, mas necessita de um conhecimento detalhado  dos custos de produção.

Outro fato interessante, a pesquisa verificou uma concentração em poucos compradores no momento da comercialização.

Encontrou também relações comerciais   longevas com duração média de 13 anos, devida principalmente a: agilidade; amizade; armazenagem; assistência técnica; atendimento; bom relacionamento; certificação; troca por insumos; comodidade/facilidade; condições comerciais, entre outros.

Importante observar que, quanto maior o tempo de relacionamento, menor o peso da variável “preço”. A armazenagem e a assistência técnica oferecida ao produtor ganham importância quanto maior o tempo de relacionamento.

Estes resultados estão alinhados com o que diz a teoria. Nos contratos relacionais de longo prazo as partes se protegem das flutuações de preço, o que traz garantia de fornecimento para o comprador e sustentabilidade econômica para o cafeicultor.

Quando perguntados sobre o risco percebido, as variáveis de destaque foram: políticas públicas incorretas para o setor como: câmbio, tributação, financiamento da safra”, e também variáveis não controláveis como  “grande variação do preço do café” e “perda por fatores naturais (excesso de chuva, seca etc.)”.

Identificou-se que 84% dos produtores são pessoas físicas para as movimentações do negócio. Não identificamos outras pesquisas que possam contrastar ou mostrar tendências de mudança para esta variável.

Principais conclusões sobre os temas revisitados

Apesar das limitações de generalização de resultados, esta pesquisa reuniu as principais características do perfil do produtor de café no Brasil. Foram apontados comportamentos de decisão sobre o manejo de sua propriedade, sobre fontes de financiamento, sobre comercialização e até sobre a influência da família do produtor na continuidade do negócio.

4 pontos merecem destaque:

– Produtores procuram e prezam por relações de longo prazo, pois estas trazem segurança em relação às flutuações de preço e riscos de forma geral.

– A participação do próprio proprietário é vista como fundamental no desempenho do negócio.

– O produtor percebe que adquire um conhecimento próprio que precisa ser passado para seus herdeiros como forma de garantir a continuidade do negócio.

– Indicam que a exposição ao risco se concentra em variáveis não-controláveis

A pesquisa completa pode ser encontrada em www.universidadedocafe.com

27 jul 2021

PODCAST UDC #3 Pesquisa: Estratégias contratuais de suprimento de cafés de alta qualidade.

Podcast Universidade do Café Brasil -Uma nova forma de comunicar nossas pesquisas.

Olá! Apresentamos neste Podcast a pesquisa Estratégias contratuais de suprimento de cafés de alta qualidade, uma pesquisa que desenvolvemos em 2015. Há mais de 30 anos o Pensa tem estudado as relações contratuais na agricultura e na cafeicultura de um modo especial.

Nos anos 1990 o Brasil passou por um período de transição na desregulamentação da agricultura. As mudanças representaram oportunidades para os produtores que, em muitos casos, passaram a ser procurados por empresas que necessitavam de cafés com características padronizadas, de alta qualidade num ritmo constante de fornecimento. A illycaffè desembarcou no Brasil nessa época e, de forma pioneira, começou a procurar produtores tradicionais em busca do café que necessitava. A illy passou a oferecer um bônus de preço por saca acima dos padrões mais altos do mercado para aqueles que se comprometiam a ofertar lotes dentro dos padrões exigidos. Com o tempo, vendo o acerto desta estratégia, outras empresas iniciaram seus processos de aquisições envolvendo padrões e estabelecendo preços motivadores para seu produto. O mercado do café no Brasil tomou uma dinâmica diferente daquela que predominou ao longo da história e nunca mais foi como antes.

A questão contratual

Para melhor entender a questão dos contratos na atualidade, a UDC Brasil contatou um grupo de produtores para rever alguns pontos de sua pesquisa. A seguir apresentaremos os principais resultados.

Praticamente todos os produtores reconhecem a importância dos contratos que definem preços de antemão com o compromisso do produtor fornecer um determinado padrão de produto.

Alguns já fazem essa prática há mais de vinte anos, com tendência de aumento do volume de contratos a termo. Na região do cerrado a prática dos contratos é comum. O perfil destes produtores é muito diferente daqueles que praticam mais as vendas pelo sistema “spot”. Este produtor que vende a termo normalmente já está estabilizado financeiramente, conhece seus custos de produção e busca as melhores oportunidades para colocar seus cafés no mercado. A prática de venda “spot” vem diminuindo e quando a safra do cerrado começa, mais de 30% do café já foi vendido.

A prática dos contratos que fixam preços para cafés de qualidade nem sempre é formalizada, ocorrendo também os chamados “contratos relacionais” nos quais as partes estabelecem reputação e têm interesse na continuidade do relacionamento ao longo do tempo. Quando existem flutuações de preços, ou quebra de qualidade, as partes do contrato mantêm o relacionamento, protegendo a relação com vistas ao longo prazo. Cabe destacar ainda que os produtores, por terem produção heterogênea, vendem no mercado spot parte da sua produção, o que é importante para gerenciar o fluxo de caixa, permitido pela liquidez elevada do café. O fato é que esses contratos trazem sustentabilidade econômica ao negócio garantindo a renda do produtor.

Já na região das Matas de Minas, observa-se menos contratos a termo, entretanto o número de produtores que fecham contratos para entrega futura tem aumentado e já se veem contratos para 2022 e 2023.

As empresas compradoras se interessam em desenvolver o relacionamento com produtores de cafés diferenciados de modo a conhecê-los melhor, estreitar os laços comerciais e reduzir incertezas de quebras contratuais de parte a parte.

Foi destacado que na região do Sul de Minas os contratos informais são importantes, constituindo-se em contratos relacionais de longo prazo com clientes internacionais. Esses clientes têm adquirido, a exemplo de outras regiões, lotes já fechados na quantidade e qualidade, há anos seguidos, demonstrando a resiliência desse tipo de comercialização.

Valido para as três regiões, os contratos no café continuam a seguir o mote de: “contrato feito, contrato honrado”. Muitas das cooperativas incentivam seus associados a cumprirem a entrega do que foi contratado em termos de quantidade e qualidade.

Um fato a ser notado é que boa parte dos contratos é feita diretamente com compradores internacionais e exportadores. Não são comuns os contratos feitos diretamente entre produtores e indústrias brasileiras. Essa falta de proteção de preços pode levar à problemas de abastecimento, principalmente em épocas de alta volatilidade de preços do mercado.

Finalmente os contratos de barter ou trocas. Empresas de insumos também criaram sistemas de agregação de valor aos cafés. Dessa forma o produtor não faz apenas uma Operação de troca de commodity por insumo, mas tem a visibilidade e rastreabilidade do café que produz com atributos de qualidade como aparência, notas de bebidas e peneiras. Ou seja, o produtor supre suas necessidades de insumos para a produção, utilizando-se dessa forma contratual diferenciada.

Como principais conclusões temos que:

– O volume de cafés comercializados via contratos aumenta em todas as regiões produtoras.

-O barter ( trocas) tem aumentado também, produtores se abastecem dos insumos necessários, obtendo bons resultados nas vendas dos cafés de qualidade.

-Observam-se as seguintes vantagens ao se realizar contratos a termo:

*Obter o travamento de preços tanto para os produtores quanto para a indústria.

*Obter redução de riscos, não ficando à mercê da volatilização do mercado.

*Manter as relações de confiança, reputação e fidelização.

Os resultados reforçam que cafeicultores cada vez mais tem buscado instrumentos financeiros com intuito de reduzir o risco da atividade.

Esta pesquisa foi publicada no Volume 8 dos Cadernos da universidade do café Brasil. Este e os demais volumes estão disponíveis para download em nosso site universidadedocafe.com

21 jul 2021

Entrevista: A Missão do Café no Brasil

A Missão do Café no Brasil

Entrevista do Prof. Decio Zylbersztajn e da cafeicultora Carmem Lúcia de Brito para o canal Missão Desenvolvimento que é realizado pela AFBNDES, conta com a apresentação do economista Paulo Gala.

31 maio 2021

Podcast UDC #1 Mudança Climática, agricultura e o café: Identificação dos rumos da pesquisa

Podcast Universidade do Café Brasil -Uma nova forma de comunicar nossas pesquisas

Olá! Apresentamos a pesquisa Mudança Climática, agricultura e o café: Identificação dos rumos da pesquisa. Trabalho realizado em 2018.

Nessa pesquisa verificou-se que apenas 2% das pesquisas cafeeiras no Brasil estavam relacionadas ao tema Mudança Climática.

Isso motivou a equipe de pesquisadores a desdobrar o assunto e mostrar o que tem sido feito pelos cientistas brasileiros nesse tópico.

O trabalho confirmou que a pesquisa sobre os efeitos das mudanças climáticas na agricultura caminha a passos lentos no Brasil, deixando-o atrás de países como Guatemala, Colômbia e México.

Muitos pesquisadores ainda resistem em aceitar que a ação antrópica está interferindo no clima do planeta.

A evolução da temperatura média global da superfície terrestre vem subindo desde o ano de 1880, como pode ser visto nos gráficos apresentados na pesquisa completa.

Após o início da segunda guerra mundial começa um crescendo que nos anos 2016 e 2019 mostram as temperaturas médias mais altas dos últimos 140 anos.

A agricultura, se não o maior, é um dos setores econômicos mais vulneráveis às mudanças do clima.

Uma característica predominante no Brasil é o começo do florescimento do cafeeiro após as chuvas do mês de setembro.

Em 2020 regiões que tiveram chuvas esparsas e temperatura acima de 33ºC no período de florescimento registraram abortamento de botões florais.

Técnicos de campo relataram problemas que influenciarão na safra futuras.

Devido à ausência de chuvas, um efeito colateral observado é que o aumento de matéria seca nos campos, somado à baixa umidade do ambiente facilita a dispersão de fogo nos cafezais.

Há produtores que chegaram a perder mais de 20% de lavoura cafeeira em incêndios, bem como outras áreas e até reservas legais.

A ausência de chuvas também atrasa a agenda de fertilização das lavouras, fato que pode afetar o desempenho das plantas por até duas safras consecutivas.

Foram identificados estudos mostrando que temperatura e disponibilidade hídrica são os fatores que mais afetam a produtividade do cafeeiro.

Com o abastecimento de água adequado por meio de sistemas de irrigação, manejo fitossanitário e outras estratégias é possível viabilizar a produção de café em regiões com temperaturas médias elevadas.

A Empresa de Pesquisas Agropecuárias de Minas Gerais -EPAMIG, tem linha de pesquisas buscando tecnologias de melhoramento genético para permitir que se cultive café arábica em ambientes com altas temperaturas e baixa umidade relativa como na região semi-árida do estado de Minas Gerais.

O sistema de integração agroflorestal com café é uma alternativa para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas, pois o sombreamento pode levar a uma redução de 2º a 3ºC na temperatura, além de auxiliar na redução da velocidade do vento e na manutenção da umidade relativa do ar.

São necessárias mais pesquisas que comprovem o efeito da alteração do microclima, como também do comportamento de doenças como a ferrugem que podem ser favorecidas com o ambiente sombreado.

As pragas e doenças precisam ser consideradas quando falamos em mudança climática, uma vez que o ciclo dos patógenos estão intimamente ligados com o ambiente.

Ainda não se sabe os impactos que podemos esperar, logo, é necessário a união de especialistas multidisciplinares para desenvolverem estratégias de adaptação relacionadas as mudanças que podemos esperar no cenário fitossanitário do cafeeiro.

As pesquisas que têm sido desenvolvidas em relação a mudança climática no Brasil identificadas neste estudo estão concentradas principalmente em 8 tópicos, sendo os três mais estudados:

  • zoneamento de riscos agrícolas,
  • a fisiologia da cultura e
  • o sombreamento.

Estes trabalhos estão distribuídos em 14 estados, sendo São Paulo responsável por 40% e Minas Gerais 27%.

As oito principais instituições envolvidas são a Embrapa, UFLA, CEPAGRI-UNICAMP, UFV, USP, IAC, UFES e INPE, representando 63% dos pesquisadores envolvidos.

Considerações finais

No Brasil ainda não existe um grupo consolidado estudando mudanças climáticas na cafeicultura e muitos cientistas atuam de forma descentralizada dentro de suas instituições.

Existe uma carência de estudos em todas as áreas, sendo a principal referência do ano de 2004 um estudo que necessita ser atualizada.

Não há uma ligação entre os pesquisadores nacionais e redes de pesquisadores internacionais.

Assim, o Brasil ainda tem um longo caminho de mudanças e adaptações para percorrer a fim de mitigar os efeitos das mudanças climáticas.

A pesquisa completa foi publicada no Volume 9 dos Cadernos da Universidade do Café está disponível para download na página: http://universidadedocafe.com/publicacoes/cadernos-universidade-do-cafe-vol-9-2019/