Seminários Empresariais do Pensa: “A visão urbana sobre o novo agronegócio”

Postado por em 08:39 hrs. em Periódicos Científicos | 4 comentários


tejon

“A visão urbana sobre o novo agronegócio”

Por Antonio Carlos Lima Nogueira

O professor, escritor e palestrante José Luiz Tejon Megido apresentou um estudo de percepções dos habitantes de cinco capitais brasileiras sobre o agronegócio. Trata-se do resultado mais recente de um conjunto de investigações sobre o tema que ele vem realizando na última década, com o apoio de empresas e entidades do setor e principalmente no Núcleo de Estudos do Agronegócio, da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

 

O objetivo desse esforço é destacar o papel do marketing para os agentes do agronegócio brasileiro, por meio da identificação do posicionamento desse setor junto à população e assim orientar as estratégias privadas que possam sustentar a atividade nos diversos mercados. Nessa pesquisa, pode-se destacar nos resultados que 89% dos respondentes concordam que o agronegócio brasileiro pode alimentar o mundo. Outro dado relevante é que 83,5% concordam que o agronegócio significa o motor da economia do Brasil. Os resultados indicam que não existe o temor da falta de alimentos pela população urbana.

 

A pesquisa indicou que o tema do agronegócio não ocupa o topo das preocupações da população, mas o setor é considerado importante para as cidades, os estados e o país. Aparentemente as pessoas da cidade gostariam de ter mais informações sobre o campo, que representa a origem de muitas famílias. Tejon considera que a expressão “agricultura familiar” pode ser considerada uma “marca” estabelecida e valorizada pelo público urbano.

 

Entretanto, essa imagem positiva parece não ser explorada pelos agentes do agronegócio, que não conseguem estabelecer estratégias coordenadas para melhorar o desempenho global do setor. Segundo o palestrante, o problema parece estar na falta de percepção das tendências de consumo pelas lideranças mais tradicionais do setor, assim como na falta de consenso entre elas. Para explorar o potencial da imagem positiva do setor, os agentes devem promover um processo de comunicação contínuo para gerar resultados. É preciso ter um projeto de comunicação de longo prazo para criar conscientização, com orçamentos definidos.

 

Uma das tendências clara no comportamento dos consumidores é a busca pela origem dos alimentos. Grandes corporações já perceberam essa tendência, mas foi citado um exemplo de empreendedorismo na Espanha ligado ao tema. Neste caso, empreendedores voltam ao campo e identificam uma antiga variedade de trigo com atributos diferenciados para a produção de cerveja. Em seguida fomentam a produção dessa variedade com agricultores da região e iniciam a produção da cerveja artesanal. Tejon propõe o conceito de “agrossociedade”, para ele mais amplo que o de agronegócio. Apresenta como exemplo a cidade Lucas do Rio Verde (MT), que integrou atividades econômicas com o desenvolvimento sustentável.

 

A palestra provocou a discussão de outros temas propostos pelos debatedores. O professor Samuel Ribeiro Giordano alerta para a falta de interesse das novas gerações com o mundo rural. Para ele estamos em uma nova fase do desenvolvimento rural, no qual percebe-se a perda do valor estratégico da terra como fator de produção. A tecnologia se tornou mais relevante que o trabalho e a terra na agricultura. Destaca que 49% do financiamento no agronegócio ainda é feito com recursos privados. Indica algumas questões relevantes para o agronegócio. Quais serão os modelos de produção no futuro? Podemos prever o crescimento das corporações agrícolas e esvaziamento das populações rurais? Quais são as entidades que podem promover um debate sobre o futuro do agronegócio?

 

O professor Decio Zylbersztajn revela o empobrecimento do debate sobre a questão agrária no Brasil, em especial sobre o papel da agricultura familiar. Para ele, o esvaziamento do campo é uma tendência no Brasil e no Mundo. O agronegócio global passa por grandes transformações e novas tendências de consumo e produção. Ele cita alguns exemplos. O primeiro é o movimento de slow food, que busca promover a melhoria da experiência do consumidor, em oposição ao fast food. Outra tendência é o mercado de produtos orgânicos, que apresenta crescimento consistente, mais ainda enfrenta problemas de garantias de origem para o consumidor. Observa-se também a expansão da metropolitan agriculture, que consiste na ocupação de espaços urbanos para produzir alimentos.

 

Pode-se perceber também movimentos de promoção da produção local, utilizando o indicador food miles, da distância percorrida pelo alimento até o consumidor. Apesar da racional e desejável, a adoção os produtos locais pelos consumidores depende da mudança de hábitos, segundo o professor. Não se pode desprezar a atração das cidades para os agricultores e por isso parece pouco viável tentar manter o jovem no campo a qualquer custo. Os possíveis caminhos para viabilizar as atividades rurais envolvem a criação de instituições que favoreçam a criação de negócios no campo e os investimentos em tecnologias de conectividade para o monitoramento de sistemas produtivos à distância.

 

As relações entre os mundos urbano e rural parecem estar passando por profundas transformações, conforme se observa pelas discussões descritas brevemente nessa resenha. Essas relações podem evoluir com a inovação tecnológica, gerencial e de comunicação no agronegócio, mas existe uma predisposição positiva do público urbano em relação ao mundo rural. Cabe aos líderes do agronegócio aprofundar esses temas e buscar ações estratégicas para promover o desenvolvimento do setor.

 

4 Comentários

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  1. Artur Saabor

    Excelente artigo. Gostaria de ter acesso à integra do trabalho/estudo: “A visão urbana sobre o novo agronegócio”.
    Agradeço desde já.
    Att.
    Artur Sabor

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